O Futuro do Dinheiro: prefácio a quatro mãos

O livro “O Futuro do Dinheiro” de Bernard Lietaer foi publicado em sua versão original, em inglês, em 2001, há mais de uma década. Desde então, foi traduzido para quinze idiomas e sua versão em castelhano chegou ao Brasil há pouco mais de seis anos. Continua sendo uma obra instigante, inspiradora ou mesmo provocante para alguns leitores. Só não lhe cabe a indiferença. Por isso, insistimos na sua publicação.

Todos os que o leem, particularmente no ambiente da militância em Economia Solidária e nas universidades, encontram uma abordagem extremamente inovadora do fenômeno social do dinheiro, ausente dos textos clássicos de Economia. Acreditamos que esta seja uma obra fundamental para o futuro do conjunto de sociedades pelas razões que serão expostas neste prefácio, resultante de um diálogo entre o professor Paul Singer[1], secretário nacional de Economia Solidária do Ministério do Trabalho e Emprego do Brasil, e a professora Heloisa Primavera, da Universidade de Buenos Aires, pesquisadora e ativa promotora das moedas complementares sociais na América Latina.[2]

Heloisa Primavera: O primeiro texto de Bernard Lietaer que li foi uma entrevista feita em 1997 pela jornalista Sara van Gelder, para a revista americana Yes, que teve como título: “Além da cobiça e da escassez: o futuro do dinheiro”.[3] Ali encontrei reflexões bastante heterodoxas, mesmo tendo em conta minha formação como bióloga devinda socióloga graças a uma tese sobre o movimento peronista dos anos 50, numa tentativa de compreender o que se passava no meu país de adoção. Envolvida com os clubes de troca na Argentina, que começavam a organizar-se em grandes redes, encontrar o livro The future of Money recém-saído numa livraria de aeroporto foi mesmo um golpe de sorte que me fez encontrar inspirações suficientes para continuar apostando no que acreditava ser um fenômeno inteiramente novo, mesmo para grande parte dos que o praticavam. Tive poucos aliados na academia, na época. Hoje, existe mais de uma centena de trabalhos de graduação, mestrado e doutorado sobre o caso argentino, na América Latina e em outras partes do mundo. O que atualmente acontece no Brasil, de certa forma, é produto de uma entrevista que fiz com o professor Paul Singer, em 1998, procurando subsídios para continuar minha pesquisa. Ele não os tinha, então, mas escutou atenciosamente minhas observações sobre o movimento emergente e, a partir delas, escreveu um pequeno artigo sobre o tema para a revista Trueque[4], colocando a possibilidade de que essas neoformações pudessem vir a integrar a nascente Economia Solidária…

Paul Singer: Não me lembrava desse artigo, mas parece que passou tanto tempo que é difícil relacioná-lo com tudo o que ocorreu em pouco mais de uma década. Lembro-me, sim, que um assistente meu, o André Ricardo de Souza, hoje doutor, tinha iniciado um projeto para implantar um sistema canadense…

HP: Eram os pioneiros LET’S, de Michael Linton, que estão presentes neste livro, no Capítulo 6, entre as moedas que favorecem a criação de trabalho. Na verdade, o primeiro clube de trocas inspirado no modelo argentino nasceu em São Paulo, em agosto de 1998, e ainda existe, com a sua moeda social denominada bônus. Dois anos depois, os organizadores do Banco Palmas, ainda em seus primórdios, tomaram contato com esse modelo e o acrescentaram às demais estratégias de microfinanças e à promoção de empreendimentos.

Apesar de serem praticamente impossíveis de contar, por sua autonomia (graças à facilidade de implantação), pela diversidade de contextos e pela inexistência de pesquisas atualizadas, hoje se estimam em mais de trezentas as iniciativas de moedas complementares sociais no Brasil, organizadas em pelo menos quatro “famílias” diferentes, como propomos no Capítulo 12, que Bernard Lietaer nos deu a honra de incluir em sua obra fundamental.

Como acreditamos que ela deva estar em crescimento permanente, optamos por incluir muitas referências na Internet e construir um site em que informações atualizadas poderão ser encontradas, compensando o hiato que existe entre o livro em papel, objeto insubstituível, mas sempre anacrônico, e a realidade que às vezes se transforma vertiginosamente.

PS: Parece-me uma excelente iniciativa. Li o livro O Futuro do dinheiro há vários anos, li também seu capítulo sobre o Brasil, que achei muito bom, e estou terminando de ler o recentemente publicado Informe ao Clube de Roma, escrito por Lietaer em colaboração com outros colegas e que tem o título “Dinheiro e sustentabilidade. O elo perdido”[5]. Considero que toda a obra de Bernard Lietaer é extremamente iluminadora em questões que sempre foram tratadas de maneira convencional, com pouca ou nenhuma novidade, pela Economia e mesmo pela Sociologia. O tamanho e a complexidade da crise que vivemos hoje requerem – necessariamente – novos tratamentos políticos, mas também teóricos, para encontrar saídas. Daí sua importância. 

Convencionalmente, o dinheiro é considerado por nós – economistas – como um instrumento de troca. É basicamente isso e também um instrumento possível, não único, para a poupança. São as funções clássicas do dinheiro, segundo as quais ele é um instrumento neutro para a economia de mercado.

O que a obra de Bernard Lietaer mostra de forma contundente é que esse instrumento transformou-se num fator político extremamente importante, já que é manejado não somente pelo estado, que hoje tem o monopólio da emissão da moeda oficial, mas também pela poderosa oligarquia do setor financeiro que o domina de forma cada vez menos reversível. Como mostrou Keynes, o dinheiro não tem nada de neutro, ele não é um mero instrumento, mas uma mercadoria sui generis, que pode ser usada e é usada para extrair mais valor, lucro, por intermédio principalmente da especulação.

O Futuro do Dinheiro é uma obra extremamente crítica em relação aos sistemas monetários que existem hoje, mas também produtiva. A crítica tem como principal centro a constatação de que o sistema monetário tem interesses próprios. O dinheiro não é um martelo que se usa para bater quando é necessário e que, depois de usado, permanece inerte. Ao contrário, criou-se uma forma de que seja mais vantajoso que ele fique parado do que aplicado na economia real. Essa é, a meu ver, a contribuição mais importante do livro: desmascarar a visão tecnicista que oculta o essencial. O dinheiro que existe não é meio, é fim.  Isso ocorre graças à especulação financeira que é feita, basicamente, pelo dinheiro. Lietaer não só faz a crítica a essa visão, mas principalmente resgata experiências históricas e atuais, trazendo propostas muito inovadoras e importantes nesse momento que o capitalismo está vivendo. Apesar de a crítica já ter sido feita por outros autores, como Marx e Keynes, poucos fizeram propostas de mudança.

Um antecessor dessas idéias foi o alemão-argentino Silvio Gesell, muito menos difundido, mas também recuperado nesta obra como o primeiro que teve a idéia de desencorajar o entesouramento do dinheiro, criando o juro negativo, uma punição e não um prêmio para quem não o deixasse em circulação. Essa medida foi adotada na Áustria, durante a crise dos anos 30, e o livro a descreve como tal.

HP: A propósito de Silvio Gesell, poucos sabem no Brasil que ele migrou da Alemanha para a Argentina no começo do século passado e que foi lá que fez as observações sobre o funcionamento da economia que deram origem a uma obra monumental[6] em que propõe essa idéia de “demurrage” ou “oxidação” do dinheiro que ficasse parado. As moedas complementares podem ser produzidas pelo estado (por governos municipais ou estaduais), por empresas ou grupos de empresas ou pelos próprios usuários, em sistemas de autogestão. A essas últimas, denominamos moedas sociais, para diferenciá-las de outras produzidas pelo estado para fins emergenciais, como foram os bônus da Argentina, ou mesmo por empresas privadas para concentrar e manter sua clientela, como são os vales-refeição e as milhas aéreas que permitem viajar ou fazer compras em empresas associadas. Muitas moedas sociais usam ainda hoje esse mecanismo de juro negativo, que consiste em pagar periodicamente uma pequena importância para manter válida a moeda, como é o caso, em particular, das moedas regionais na Alemanha[7] e de algumas moedas de comunidades em transição, como o Brixton Pound e o Stroud Pound, da Inglaterra.[8] Na Argentina, poucos grupos o fizeram porque a necessidade de liquidez era tão grande que ninguém pensava em guardá-las, mas, sim, em usá-las o mais rápido possível para satisfazer às necessidades imediatas.

PS: A propósito, o caso das moedas sociais na crise da Argentina tem uma imensa importância histórica. É preciso vê-lo, na virada do século, no contexto de uma crise fortíssima, devida ao mal chamado “ajuste estrutural” imposto pelo FMI e pelo Banco Mundial. Essa crise deveria servir como um “trailer” para governos como os da Grécia, da Irlanda, de Portugal e da Espanha: os países se endividam por estímulo de quem empresta, e a cobrança é usada como chantagem, levando os países a se autoarruinarem. A Argentina foi uma clara precursora do que está acontecendo hoje na Europa. Por outro lado, vê-se também como uma iniciativa da sociedade civil, que nem pretendeu ser revolucionária, mas simplesmente quis diminuir o impacto da crise de desemprego, multiplicou-se exponencialmente e transformou-se em boia de salvamento para boa parte da população empobrecida.

HP: Nos fins da década de 90, com a política monetária de convertibilidade do peso argentino em dólar americano, coincidente com o auge das moedas provinciais (oficiais) e dos clubes de troca organizados em grandes redes regionais, um professor inglês tomou uma foto no interior do país onde uma loja exibia – quase com orgulho – um cartaz que dizia: “Aceitamos pesos, dólares, bônus provinciais e créditos (dos clubes de troca organizados)”!  Esse fato foi resgatado em sua obra[9] e a foto está disponível.

Outro aspecto inovador da obra de Lietaer, mais desenvolvido em outro livro[10] ainda não traduzido nem ao português nem ao castelhano, é a interpretação do significado do dinheiro nas diferentes culturas, o que traz consigo maior ou menor facilidade de mudanças radicais nos sistemas monetários. Apelando à teoria dos arquétipos do inconsciente coletivo de Carl Gustav Jung, o autor relaciona a resistência à mudança ao medo da escassez, mais forte em umas culturas do que em outras. Uma síntese dessa abordagem pode ser encontrada na entrevista com Lietaer citada na nota 3: a vocação humana pela cobiça e pela avareza é uma conduta irracional que provém da repressão dos arquétipos do inconsciente coletivo, em particular da Grande Mãe (a Pachamama andina) e também da Amante, a Iemanjá da tradição afro-brasileira. O interesse desses argumentos é precisamente compreender por que não mudamos radicalmente comportamentos que “sabemos” que nos estão levando ao abismo, para conceber estratégias de mudança mais eficientes e de curto prazo. É o que temos trabalhado nesses últimos anos. A chamada “ciência” econômica trata de números e esquece que é uma ciência humana, porque se relaciona ao comportamento individual e coletivo de seres humanos, que têm emoções, sentimentos, e sem-razões, tendências coletivas do grupo de pertencimento, por isso diferentes culturas têm tratamento tão diferente do dinheiro, do bem privado e do bem comum.

PS: Concordo inteiramente com você. A tendência da Economia que é ensinada hoje, e que a meu ver é totalmente ideológica mesmo que pretenda ser a visão “científica” do mundo, é que ela parte do pressuposto não discutido de que o ser humano é racional e egoísta. Todos somos racionais e infinitamente egoístas: isso é um pressuposto não discutido na Economia. Obviamente não é verdadeiro como generalização. Isso simplifica a tal ponto a análise teórica do comportamento humano que, de acordo com essa visão, o que você faz com o dinheiro? Pois faz o máximo para multiplicar o seu dinheiro. Se você não é rica, quer ficar; se é rica, quer ser milionária; se é milionária, quer ser bilionária… Usa seu computador para cálculos de probabilidades para multiplicar seu dinheiro e começa a não gastar esse dinheiro para que ele se multiplique. Investe em ações na Bolsa para aumentar esse número ao infinito, sem limites. Por isso, essa conduta multiplicada milhões de vezes paralisa uma parte importante do dinheiro que fica “jogando” para produzir mais dinheiro e nunca se usa para a economia de produtos e serviços necessários ao funcionamento do conjunto da sociedade. Todos nós sabemos que isso tem efeitos extremamente negativos para todas as pessoas, mesmo que às vezes isso não seja percebido assim. A típica crise capitalista pode ser explicada como um momento de pavor da camada mais rica das sociedades, que monopoliza grande parte do dinheiro de todos. A classe dominante sente-se insegura e retém uma proporção importante do dinheiro. Por isso é importante a contribuição de Silvio Gesell, que propõe que quem retenha o dinheiro pague, em vez de ganhar mais dinheiro. A meu ver, essa idéia continua válida, mas a mudança não será rápida porque os possuidores do dinheiro têm muita força política.

Daí que a saída de diversificar – pluralizar as moedas que propõe Lietaer – seja brilhante: cada grupo inventa a moeda que precisa para seu próprio uso, e com isso escapa em certa medida da crise. O atual governo brasileiro compreendeu isso assim e apóia essa criação monetária, que surpreende o próprio Bernard Lietaer.

HP: Nesse sentido, um caso paradigmático é o que se dá em Campo Limpo, na zona sul de São Paulo, onde estão funcionando duas moedas (sociais) locais: a Sampaio[11] e a Solano[12]; a primeira, em um banco comunitário, e a segunda, num circuito cultural paralelo. São familiares, mas não se confundem, e ainda não se colocou a necessidade /possibilidade de unificação delas, mas, sim, a manutenção da diversidade. É também o caso dos coletivos Fora do Eixo (FDE), que desde 2005 vêm crescendo e construindo um novo eixo que agora os inclui e atravessa as fronteiras do Brasil e da América Latina. Acabam de lançar uma Universidade Livre FDE e dispõem de seu próprio banco FDE, articulado por coletivos de vida comum, com casas em vários pontos do país.[13]   

PS: A partir da confissão de sua própria marginalidade, conseguiram desenvolver-se fora do eixo Rio-São Paulo, criando, entre outras coisas, um sistema muito inteligente de moeda complementar. É preciso reconhecer que uma das mudanças importantes que houve no Brasil, que se vê mais claramente nesta gestão do que na anterior, foi a mudança no Banco Central. Não foi fácil, foi necessário quebrar o tabu dos bancos centrais como garantia de estabilidade monetária e conceitual. Houve seminários internacionais muito interessantes, dos quais participamos ambos, que contribuíram para que as iniciativas de moedas locais fossem apoiadas, e não combatidas pelos bancos centrais, como foram ao longo da História, no mundo inteiro.

Vivemos um momento muito rico, em que estão vindo à tona iniciativas de pequeno porte, mas de grande poder transformador, que fazem as diferentes iniciativas começarem a se perceber como complementares umas das outras. Pois são; nenhuma é superior à outra, todas são necessárias, e quantas mais conhecermos, mais possibilidades de transformação social – que precisamos.

No Informe ao Clube de Roma já mencionado aqui, encontrei propostas fantásticas, como a moeda wellness (tokens), destinada a gerar bem-estar, ou seja, estimular a prevenção de doenças. Parece-me uma ideia fascinante.

Heloisa Primavera: Apesar de as moedas complementares parecerem um simples instrumento monetário, uma “cópia” da outra moeda, na verdade, elas condicionam as demais práticas sociais, como é o caso da wellness, que provoca una “revolução” no cuidado do corpo. Realmente, assim andamos hoje, como você diz, se olharmos fora do nosso quintal: temos o rei do Butão[14] redefinindo a Felicidade Interior Bruta, substituindo o mutilante PIB; o Produto Interno Doce[15] como proposta da inclusão social na província de Quebec[M3] , no Canadá; os novos indicadores de riqueza de Patrick Viveret e o grupo que gerou a moeda Sol na França; o nosso Tião Rocha[16], inspirado nos trabalhos de Manfred Max-Neef em Tiradentes (MG) nos anos 70, que hoje revolucionou o âmbito do desenvolvimento local com o coração, incluindo alegria, cinema, cultura, jovens, fabriquetas de software, tecnologia de ponta, reciclagem de sucata, permacultura integral com mandalas, sítio-maravilha que replica casas-maravilha com uma moeda conceitual (Arassussa) que nasceu sozinha, sem teoria monetária; enfim, criou indicadores de riqueza/participação e beleza difíceis de imaginar algumas décadas atrás…

Paul Singer: Se não me engano, Tião Rocha é aquele que ensina embaixo da árvore…? Gostaria muito que ele viesse nos contar sobre essas conquistas que fez num lugar dos mais pobres do Brasil, lá no Jequitinhonha, certo? Também para contar a ele que na Rio+20 aconteceram coisas muito interessantes, como foi a Cúpula dos Povos, que ainda está sendo minimizada. Então é isso mesmo, assim estamos vivendo hoje, com o rei do Butão fazendo o trabalho que as ciências sociais não foram capazes de fazer… Com meus companheiros do Banco Palmas inventando coisas que nem na Universidade nem no governo eu fui capaz de criar.

HP: Será um novo princípio da divisão territorial do trabalho? Se chegarmos a articular e instrumentar bem as inovações a que estamos assistindo, já não haverá exército industrial de reserva… Cada um faz uma parte, mas que faz parte do todo. Ninguém pode fazer tudo, mas pode estar olhando tudo para ver o que fazer, com quem fazer, quando e como. Por exemplo, há uma década, nossa atuação com a RedLASES estava focalizada no desemprego, em atenuar a crise local: para isso as moedas sociais foram um instrumento importante. Hoje, o foco está na sustentabilidade porque o olhar teve de incluir o global. Como diz Lietaer, sabemos que o planeta (sozinho) é bem sustentável. Mas queremos garantir que nossos filhos e seus filhos cheguem lá. O desenvolvimento que pensávamos como solução hoje é o problema, como já propôs o pioneiro François Partant[17] seguido por Serge Latouche[18], que introduziu a ideia de decrescimento sereno. Se isso está acontecendo no campo das ideias, também é certo que muitas outras estão ocorrendo na prática, sem teorias de apoio, como o caso da reconstrução massiva dos mangues numa região do Senegal (África), com o plantio de 100 milhões de árvores em pouco mais de três anos.[19] Outro caso interessante, também na África, que conhecemos tão pouco, é o do pagamento de empréstimos para a produção agrícola, que está sendo feito parte em dinheiro e parte em… produtos agrícolas! Essa visão de complexidade e responsabilidade social estendida, que olha o presente e o futuro, apenas está se instalando, na prática; não sabemos quando os “tempos” da academia poderão incorporá-la. Mas sabemos que já existe um milhar de iniciativas de comunidades em transição[20] que estão pensando e vivendo, preparando-se para o fim do petróleo barato (bem antes do esgotamento do recurso); elas ainda não têm a projeção internacional que merecem, apesar de outros movimentos já estarem na mesma linha por outros argumentos.[21]

Por isso é que estamos olhando, além dos outros campos que já estão ocupados e bem povoados, para os movimentos de restauração das florestas, de permacultura integral em zonas rurais e urbanas, as diferentes iniciativas de desenvolvimento de pequena escala recuperadas como construção de cidadania. E também estamos acompanhando os “indignados”, uma vez que se acalmem… Na verdade, a origem dos indignados não está centrada na ira, como se pensa em geral, mas na recuperação da dignidade. Cheguei a essa compreensão há pouco tempo, em março de 2012, quando fui convidada pela Universidade de Liverpool para o Diálogo Norte Sul sobre Economia Solidária[22], para expor sobre o estado da arte das moedas sociais e complementares na América Latina. Na verdade, o pensamento de Bernard Lietaer sempre esteve voltado para o desenvolvimento local, daí a sua referência permanente a moedas locais ou comunitárias, por isso entendemos que uma das estratégias dessas comunidades é a criação de uma moeda local.

PS: Concordo plenamente: a moeda é um instrumento importantíssimo. Mas outros instrumentos, como a educação, o cooperativismo, o orçamento participativo, não são menos importantes: são partes de um todo maior que é este mundo pós-capitalista que já estamos construindo. Ao contrário do que pensávamos quando jovens, que era preciso destruir politicamente o capitalismo, conquistar o Estado, tudo isso fracassou estrondosamente porque não é democrático e por isso nao é sustentável. Por isso insisto em afirmar que o trabalho de Bernard Lietaer, e tantos outros que o acompanham, é uma importante contribuição para um processo revolucionário pacífico. O que está acontecendo – pipocando – no mundo inteiro é isso. Nessa conversa, você me contou sobre iniciativas e conceitos que eu desconhecia… Um procura, outro faz ou faz acontecer. Meu papel no governo brasileiro tem sido apoiar o que meus companheiros estão fazendo, lá na ponta, o que não tivemos capacidade de inventar, a não ser talvez contribuir com a idéia de Economia Solidária como política de Estado. O que você mesma está reafirmando aqui é a não neutralidade da moeda, colocada por Keynes: a moeda importa e pode ser usada para o bem ou para o mal. Nós a estamos usando para o bem.

O aspecto fundamental da obra O Futuro do Dinheiro é que a moeda complementar social nega a loucura da maximização do retorno. Moeda não foi feita para isso. Podemos recuperar essa finalidade. Estamos fazendo isso. A proposta das moedas complementares sociais, moedas locais, vem de práticas ainda invisíveis. Quando elas forem visíveis e se generalizarem, teremos outro mundo.  

HP: Sou otimista. Acredito nos jovens. E nas tecnologias como força libertadora, em particular, na potência da internet como espaço de democratização. Darcy Ribeiro, que foi meu orientador de mestrado há muitos anos, previu essas duas condições. Disse que estávamos condenados à democracia pela difusão da informação, principalmente graças à internet. E até chegou a cobrar dos jovens a indignação! Ou seja, hoje não falta nada. Só saber olhar. E acompanhar.

PS: Eu também acredito nos jovens. Não tínhamos falado sobre isso, mas minha esperança são os jovens. São menos preconceituosos, têm menos heranças para carregar, menos dogmas para defender, são mais livres e corajosos para experimentar.  

                                              São Paulo / Brasília / Buenos Aires, 1º de outubro de 2012

 


[1] Paul Singer foi diretor do Departamento de Economia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e ocupa esse cargo público desde 2003 até o presente. Partidário entusiasta das iniciativas de organizações de base em autogestão e cooperativismo, foi pioneiro no desenvolvimento da Economia Solidária como política pública.

[2] Professora da Universidad de Buenos Aires, doutoranda em Pensamento Complexo pela Multiversidade Edgar Morin e cofundadora da Rede Latino-Americana de Socioeconomia Solidária www.redlases.org

[4] Singer, P. Clubes de troca y economía solidaria (1998). Revista Trueque, Buenos Aires: www.redlases.org/biblioteca. Ver aqui na página: Efemérides 1998.

[5]Bernard Lietaer, Christian Arnsperger, Sally Goerner e Stefan Brunhubber, 2012. Money and Sustainability. The Missing Link.  A Report from The Club of Rome – EU Chapter to Finance Watch and the World Business Academy, Devon, UK, Triarchy Press.

[9] Peter North, 2007. Money and Liberation. The Micropolitics of Alternative Currency Movements, Minneapolis/London, University of Minnesota Press.

[21] http://www.desazkundea.org/ II Encuentro Decrecimiento y Transición, Octubre 2012


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3 thoughts on “O Futuro do Dinheiro: prefácio a quatro mãos

  1. ¡Excelente entrevista, Heloisa! ¡Qué placer leer algo tan inteligente y esperanzador! Te agradezco profundamente tu constante trabajo por la difusión de la verdadera economía, la que libera, la que nos hace humanos. Y te mando un gran abrazo en este mes de marzo, en que recordamos un nuevo aniversario del nacimiento de nuestro querido y visionario Silvio Gesell. Te extrañamos mucho por aquí.
    Mi mayor respeto y cariño también al profesor Paul Singer, a quien tanto me gustaría conocer. No perdemos la esperanza de tenerlos a ambos por aquí. Beijinhos!
    Mónica Elena García
    Museo y Archivo Histórico Municipal de Villa Gesell

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