Brasil 2012

Capítulo 12

Moedas complementares no Brasil: passado e futuro 

Heloisa Primavera [1]

Levando-se em consideração as iniciativas monetárias que aqui existiram, o surgimento desta obra no Brasil faz com que seja imprescindível um olhar sobre sua história. Uma particularidade que é preciso resgatar é o apoio recente a algumas delas pelo governo nacional e pelo próprio Banco Central, instituições que vem contribuindo, de forma inédita nos governos democráticos ocidentais, para uma mudança na correção das desigualdades sociais, conseqüência de um sistema monetário que se tornou obsoleto ainda para o capitalismo vigente. Este capítulo tem por finalidade criar um contexto para a compreensão da história, mas principalmente aproximar-nos das possibilidades que se estarão construindo a partir de inovações que hoje estão no presente, mas que serão passado quando este livro estiver sendo lido. Acreditamos que o que importa é esse futuro aberto, que pode – ou não – vir a marcar um novo caminho, mais do que urgente, imprescindível para as gerações que nos seguem.

1. Antecedentes monetários inovadores no Brasil: brizoletas, glenetas, vale-transporte e Campino Real                                                                                                                                                                                                                                          

Pode-se sorrir, pode-se sofrer, pode-se morrer por uma recordação. ( G.Moustaki)

O Brasil tem e teve várias iniciativas em relação às moedas complementares à moeda nacional e anteriores às moedas sociais – se concordamos em denominar assim aquelas que são produzidas, distribuídas e geridas pela própria comunidade que as utiliza. Como já assinalou Blanc,[2] moedas complementares são mais a regra que a exceção na maioria dos países, mas elas nem sempre são reconhecidas como tais, e isso tem conseqüências importantes. Principalmente na aceitação do senso comum de que o dinheiro é essa coisa intocável e misteriosa que está aí, que é e será o que já é e foi sempre e de que as pessoas não têm direito de alterar essa ordem, propositadamente velada, mas aceita por todos. Como casos paradigmáticos de inovações que partem do poder público, ou seja, que se desenvolveram “de cima para baixo”, escolhemos quatro, que ilustram iniciativas vinculadas à política de cada época. Suas consequências foram tão variadas como desconhecidas para a maior parte dos movimentos sociais, para a política e até mesmo para a academia. Reconhecendo como campo importante a ser aprofundado no futuro, introduziremos a seguir alguns aspectos das “brizoletas”, das “glenetas”, do “vale-transporte” de Curitiba e do Campino Real.

Brizoletas                                                                                                                                                                                                           Em 1960, na gestão de Leonel Brizola, o Estado do Rio Grande do Sul emitiu bônus de cancelamento da dívida pública[3] a serem pagos ao final desse período na moeda “cruzeiro” vigente na época. O objetivo era sanear as finanças públicas e empreender uma agressiva política de desenvolvimento, especialmente em educação. Como resultado de uma das políticas públicas mais visíveis – a erradicação do analfabetismo e a promoção do ensino técnico – é possível que hoje quando ao se falar das “brizoletas”, se pense mais nas 5 mil rudimentares escolas de madeira que foram construídas do que naqueles títulos utilizados para pagamento dos servidores públicos, que permitiram a realização das obras. Vale a pena mencionar as cinco estratégias usadas para instrumentar essa política educacional: descentralização do ensino primário, construção de edifícios em todas as regiões do Estado, contratação em massa de professores, concessão de bolsas de estudos a alunos e a compra de vagas em escolas particulares, em troca da cessão de professores estaduais! Altamente inspiradoras e mais que atuais, pois ainda hoje, muitas escolas “brizoletas” continuam em atividade. Como o golpe militar de 1964 interrompeu a vida democrática do país por mais de duas décadas, a avaliação do impacto potencial da medida monetária que sustentou as brizoletas ficou impossibilitada e não sabemos da existência de estudos aprofundados sobre o tema. Continua sendo relevante buscar informações em fontes primárias ou secundárias e promover pesquisas que permitam comparar essa iniciativa com outras, que desafiaram o status quo e tentaram ir além do que parecia possível em matéria de financiamento de políticas públicas destinadas a corrigir desigualdades sociais.

Trinta anos mais tarde, pode-se pensar que o orçamento participativo inaugurado em Porto Alegre tenha sido uma inovação em política pública, herdeira das brizoletas, que mexeu profundamente as finanças, no nível municipal e depois no estadual, no Rio Grande do Sul. A vida democrática permitiu que sua difusão fosse muito maior, tanto no Brasil como na América Latina e em outras regiões do mundo, chegando a inspirar em 2001 a criação do Observatório Internacional de Democracia Participativa, que hoje tem sede na cidade de Barcelona. Reuniões que continuam anuais revelaram a existência de milhares de experiências a partir dessa iniciativa pioneira.[4]  Chamamos a atenção para esse exemplo, que não tem a ver diretamente com o uso de moedas complementares, porque envolve a participação central e muito ativa da cidadania como forma de legitimar-se e tornar sustentável uma política pública bastante heterodoxa, pois altera profundamente as relações entre o poder executivo e o poder legislativo.

Vale-transporte de Curitiba                                                                                                                                                                                                                           

Também na região Sul do Brasil, como se mostrou no Capítulo 7 sobre Moedas comunitárias, surgiu em Curitiba em 1975 o vale-transporte, que pode ser considerado a primeira moeda complementar “ecológica” do Brasil, por iniciativa do poder público. Retomamos o tema para incluí-lo nas iniciativas “de cima para baixo”, neste caso com grande impacto sobre a vida da comunidade e lamentavelmente descontinuado, mais por razões devidas à alternância política. Durante seu primeiro mandato como prefeito de Curitiba, o arquiteto Jaime Lerner fez uma série de inovações que logo transformariam a cidade num modelo de gestão em mais de um aspecto. Infelizmente as inovações não foram apropriadas ao longo do tempo, talvez por insuficiente cultura de práticas de política de Estado.

Glenetas                                                                                                                                                                                                                                                            

 Outro exemplo de inovação monetária foram as “glenetas”, assim denominadas por certo parentesco com as “brizoletas”, apesar de terem sua origem e destino diferentes. Em 1997, Glênio Pereira Lemos, prefeito de Santana do Livramento – cidade gaúcha na fronteira com o Uruguai – autorizou a emissão de “vales-compra” ou “glenetas” nos valores de 5, 10, 20, 50 unidades, por intermédio do Sindicato de Servidores Municipais. Esses títulos circularam durante quase dois anos e eram aceitos tanto em Santana como na cidade uruguaia fronteiriça de Rivera. Os servidores públicos chegaram a receber 60% de seus salários nessa moeda complementar. Posteriormente uma série de denúncias levou à intervenção do Banco Central, que proibiu sua emissão. Em 1999, o Sindicato queimou em praça pública as “glenetas” em circulação e sofreu depois vários processos judiciais, como responsável legal pela emissão. Houve prejuízos de cerca de 2 milhões de reais para empresas que aceitaram as “glenetas”.[5]

Em 2007, o Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Sul emitiu parecer sobre o tema e apenas “multou” o prefeito em R$ 1.500,00 (mil e quinhentos reais) por infração de Normas de Administração Financeira e Orçamentária, conforme previsto no artigo 67 da Lei Estadual nº 11.424/2000.[6] Ou seja, a sanção pareceu mais relativa à inexistência de um código jurídico que abarcasse a figura da abertura de Créditos Especiais, como o “vale-compras”, com base nas Leis do Orçamento e das Diretrizes Orçamentárias dos Municípios.

 Campino Real

A quarta moeda complementar criada pelo poder público local foi o Campino Real, de escassas referências na literatura política, acadêmica ou mesmo jornalística, mesmo se tomarmos como indicador o acesso de conteúdos pela Internet. Preencher essa lacuna certamente contribuiria com a compreensão dos mecanismos de inovação na gestão pública, que se instalam, têm êxito e desaparecem como por encanto. Será mesmo encanto? Ou haverá melhores explicações se pesquisarmos mais seriamente sua história? Onde? Como?

Atualmente, nem mesmo o vídeo “Vizinhos têm saudades da antiga moeda…” está disponível neste momento: uma busca elementar conduz a um enlace desativado, o que mostra a falta de interesse por temas que deixam de ser notícia.[7] Mas algumas cédulas de Campino Real ainda podem ser encontradas em sitios especializados de colecionadores ou leilões de raridades, pois seu valor “real” hoje reside mais em sua origem, seu desenvolvimento e seu desenlace. É um processo ilustrativo da força dos diferentes lobbies e do custo político, pessoal e social, que enfrentam aqueles que se animam a encarar a concepção corrente de que dinheiro é isto que está aí e não se pode mudar…

Campina do Monte Alegre é uma pequena cidade de menos de 8.000 habitantes, a 220 km da capital de São Paulo, que conquistou sua autonomia da vizinha Angatuba em 1992. Pode-se dizer – literalmente – que não está no mapa e certamente não está no mapa da administração pública convencional. Nossa pesquisa pessoal nos levou a descobrir que a primeira inovação foi que, na primeira gestão administrativa, já não teve funcionários públicos: o prefeito Carlos Eduardo Vieira Ribeiro, eleito pelo Partido Verde, os “devolveu” a Angatuba. Ele conseguiu terceirizar todos os serviços públicos de uma forma sui generis: em vez de privatizá-los, deu-se ao luxo de entregá-los a trabalhadores locais, por intermédio da Multicooper.[8] Essa era uma engenhosa cooperativa de serviços múltiplos que funcionava como um banco de profissionais autônomos, capazes de oferecer preços competitivos e ganhar a maior parte das concorrências públicas. Em pouco tempo, essa verdadeira inversão da lógica econômico-política vigente em tempos de “ajuste estrutural” na América Latina obteve como resultado um recorde fantástico: após dois anos de gestão, nenhuma criança estava fora da escola, o déficit habitacional era mínimo e as contas do município tinham transparência permanente. Outro “descobrimento” não menor: os gastos com serviços de gestão não ocupavam mais que 28% do orçamento público, ou seja, 72%  do orçamento podia ser utilizado no que a cidade decidisse, por exemplo, no que fosse considerado prioritário pelas pessoas que nela viviam. Se isso não é construção de cidadania, o que seria?

Criaram-se Conselhos do Povo, verdadeiras “secretarias” municipais, com a diferença que seus titulares eram escolhidos pelo povo. Organizaram-se Conselhos de Saúde, Educação, Cultura e Desportos, um Fundo Social de Solidariedade, Direitos da Criança e do Adolescente, Desenvolvimento Rural, Defesa do Meio Ambiente, Serviços e Obras Públicas, Hotéis e Turismo e Administração Pública. Com a construção de casas populares em tempo e custo recorde, turismo social e um sistema de saúde administrado por um médico cubano que treinou agentes comunitários e promoveu o uso medicinal de ervas locais. “Campininha” pôde apreciar já no seu primeiro ciclo de vida alguns resultados que pareciam impossíveis. Por isso, houve em 1993 um contexto favorável para promover a primeira moeda comunitária da região, durante um período em que a hiperinflação rondava pelos meandros das finanças nacionais. Antes do lançamento da moeda, houve um processo profundo na concepção e na prática da gestão pública, com alta transferência de poder para a população.

A proposta da moeda complementar denominada Campino Real[9] foi muito simples porque já havia participação dos moradores na gestão pública, o que agiu como fermento para que a iniciativa triunfasse. Diante da carência de moedas em circulação, principalmente dos centavos para troco do Real, propôs-se a criação de uma moeda complementar local, que solucionava o problema e ia além! As vantagens eram óbvias e grandes: quem entregava seus Reais recebia Campinos Reais, que, quando “destrocados” por Reais, eram corrigidos além da inflação, já que os Reais permaneciam aplicados no mercado financeiro! Como a transparência era praxe na cidade, confiança não faltava, e a inovação foi muito bem aceita: com Campinos Reais se comprava e se pagava tudo.

O organismo encarregado das operações pela Prefeitura, que delegava essa função, era a Associação dos Comerciantes. O que mais pedir? Tudo funcionou muito bem durante mais de um ano, até que a experiência foi mostrada na TV em um programa dominical de alta audiência e o Banco Central – zeloso de suas funções – viu-se obrigado a intervir para evitar a multiplicação do mau exemplo… Ou seja, para que outros prefeitos não descobrissem que “o rei estava mesmo nu” e era possível mexer na estrutura e funcionamento do dinheiro, em pequena escala, mas se bem acompanhado. Diz a lenda que o Banco Central tentou enviar um carro-forte para sequestrar os Campinos, mas como a população avisou que o esperaria armada (de argumentos!), o carro não veio. Enfim, uma saída negociada com a presidência da nação foi possível porque o mandato estava por terminar e o prefeito pensava em candidatar-se a outro cargo eletivo, no qual pudesse difundir suas descobertas.

E a que “descobertas” nós nos referimos? Simplesmente descobriram que é possível promover o desenvolvimento local e reduzir dramaticamente as desigualdades, aprofundando a democracia direta! Tocamos com isso num dos mitos mais fortes dos últimos séculos: no dinheiro não se toca! Terminada essa gestão, o prefeito sucessor achou melhor voltar as coisas “ao normal” e desativou quase todas as conquistas alcançadas, sentindo-se no “dever moral” de desfazer o que fez Vieira Ribeiro, independentemente de uma análise sobre o que foi bom ou mau para a população.

No terceiro mandato, o prefeito inovador candidatou-se, foi reeleito e continuou inovando. Foi nessa gestão (2003-2007) que o visitamos pela segunda vez e pudemos participar de algumas atividades no município. O Fundo Social de Solidariedade estava instalado num espaço muito acolhedor, onde convergiam ações de distintas áreas: lá ficava exposto artesanato de alta qualidade, davam-se cursos para adultos e crianças, destinados a explorar o potencial criativo; sempre havia algo acontecendo: oficinas de bijuteria, com meninos e meninas acompanhados por instrutoras competentes e amorosas no trato com as crianças, felizes com suas “obras de arte”. Ao Fundo chegavam também participantes do Projeto Capiguara[10] para comprar cestas básicas na moeda local, equiparada ao Real e obtida a partir do trabalho com a coleta seletiva de lixo. Os moradores, por fazer a separação dos diferentes materiais, cobravam dos catadores moedas locais entregadas pela Prefeitura e com elas podiam adquirir produtos em exposição no Fundo Social; ao passo que os catadores cobravam seu trabalho em moedas locais e com elas podiam adquirir cestas básicas e outros produtos. Ao mesmo tempo, já naquela época, funcionava um telecentro, onde crianças e adolescentes recebiam formação em informática e tinham direito a usar conexões à Internet em horários especiais. Pudemos nessa oportunidade presenciar uma sessão na assembleia legislativa, onde se definiam condições para o acesso à casa própria, com a discussão de prioridades definidas pela própria comunidade, organizada para a construção colaborativa, assumindo a responsabilidade pelos prazos de entrega. Enfim, uma cidade ocupada com o presente e o futuro de seus habitantes, em todas as áreas da gestão pública, concebida como um serviço à comunidade.

É interessante observar que esse prefeito inovador – aberto e conciliador, que “despachava” nas ruas para atender às demandas da população, e que deveria ter sido premiado pela ousadia e simplicidade de suas realizações – terminou sendo destituído antes do final de seu segundo mandato. Mais curioso ainda é que isso não aconteceu pelo fato de ele ter criado uma moeda local, mas por ter criado um modelo de cooperativa inovador demais! A Multicooper – onde conviviam diferentes tipos de atividades e prestadores de serviços – foi o ponto de apoio para que a organização máxima do cooperativismo brasileiro o processasse e ganhasse a causa! O que mostra que não só é difícil reinventar o dinheiro, mas também as formas de trabalho que promovem solidariedade entre os trabalhadores! Ao final da viagem, pudemos observar na fonte da praça central uma metáfora que fala de um momento particular da história dessa pequena cidade do estado mais poderoso do país: “Essa fonte é um retrato da piracema, a subida dos peixes contra a corrente, como nossa gente, procurando um novo caminho na história do Brasil.”

  • IMAGEM  1: CAMPINO- REAL
  • IMAGEM 2: CAPIGUARA

Até aqui, parecia que os governos – estaduais ou municipais – ainda não tinham conseguido encontrar as estratégias necessárias para enfrentar os problemas de orçamento com inovações monetárias. A exceção pode ser considerado o orçamento participativo, que trabalha com moeda oficial, mas gerida com a população.  Por isso, é possível pensar que o caminho iniciado com os clubes de troca tenha inaugurado uma nova estratégia “de baixo para cima” que tenha sido capaz de seduzir mais eficientemente o poder público e outras instituições.

 2. Essa estranha relação Brasil-Argentina: uma parceria que falta?

A saída das ditaduras militares e entrada na etapa conhecida como “ajuste estrutural” ocorreram na América Latina de forma quase simultânea em vários países. Contágio ou plano bem executado, ela consistiu na prática em descentralização dos serviços públicos básicos (educação, saúde e obras públicas), desregulação e abertura dos mercados, privatizações de empresas públicas, seguidas pouco tempo depois por inflação (ou hiperinflação), moedas novas, alto desemprego, conflitos setoriais recorrentes, aumento significativo das desigualdades, com a consequente aparição de novos movimentos sociais de resistência. Não faremos aqui nenhum levantamento que nos distancie do nosso foco principal, mas é importante assinalar alguns dados para compreender essa estranha relação entre os dois maiores países da região:

  • Na ditadura militar do Brasil no período 1964-1985 houve várias moedas (cruzeiro, cruzado e novo cruzeiro), floresceram diversos movimentos sociais, entre os quais o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e diferentes iniciativas de Economia Solidária. Outra iniciativa que deve ser lembrada foi o Fórum Social Mundial, lançado em 2001 em Porto Alegre, que pretendia dar visibilidade e articular múltiplas e heterogêneas iniciativas transformadoras com origem na sociedade civil. O evento propiciou, sem dúvida, o fortalecimento do movimento de Economia Solidária, do Comércio Justo, do Consumo Ético e Responsável e também das Moedas Sociais. A partir de 2003 foi criada a Secretaria Nacional de Economia Solidária no Ministério do Trabalho e Emprego, que reconheceria como legítimas iniciativas da Economia Solidária, primeiro, os clubes e grupos de trocas, depois, os bancos comunitários com moeda social.
  • A ditadura militar na Argentina foi descontínua, mas pode-se considerar que durou, numa primeira etapa, de 1966 a 1973, foi brevemente interrompida por um governo democrático entre 1973-1976 e seguiu-se da sangrenta ditadura de 1976 a 1983, que fez desaparecer mais de 30 mil pessoas e só foi derrotada graças ao desenlace da campanha bélica contra a Inglaterra, pelas Ilhas Malvinas. A frágil democracia assim reconquistada não teve outro destino: desregulação do mercado, abertura irrestrita às importações, privatizações de empresas e serviços públicos, seguidas pouco tempo depois por desemprego, inflação, hiperinflação, várias mudanças de moedas, com algumas diferenças interessantes. É nesse contexto que devemos compreender como, a partir de 1986, aparecem as primeiras quase-moedas, moedas oficiais “estaduais” (tendo sido o primeiro o bônus da Província de Salta)[11] que chegaram a ser dezenove antes de 2002. Por outro lado, durante o período 1991-2002 esteve vigente uma lei de convertibilidade peso argentino/dólar estadunidense, que desenvolveu o hábito de usar as duas moedas em âmbito nacional, sem distinção: comprava-se comida, pagava-se táxi ou restaurante com pesos ou dólares. O valor de imóveis anunciava-se publicamente só em dólares estadunidenses.  É nesse contexto de pluralidade monetária prévia que, em 1995, nasceu o primeiro clube de trocas, como resposta de pessoas da classe média em vias de empobrecimento. Esse dado não é menor, pois talvez ajude a compreender um processo que teve sete anos de crescimento e alcançou cifras jamais igualadas em outras partes do mundo, no campo das moedas complementares. Durante o ano de 2001, antes da crise de dezembro que levaria o país ao default, foram elaborados cinco projetos de lei no Congresso Nacional para regulamentar as atividades de emissão e distribuição dos bônus dos clubes de troca, já então reconhecidos como “moedas sociais”.  Reduzir o estudo dessa iniciativa, que se transformou num movimento social de resistência ao “ajuste estrutural”, a deficiências no sistema de gestão das moedas que o sustentavam seria anular, talvez, sua parte mais significativa: como e por que cresceram os grupos exponencialmente? Principalmente porque na atualidade – mais que nunca e em todas as partes – são necessárias formas de superar as crises financeiras que corroem o tecido social sem distinção de hemisférios. Temos assistido, nessa última década, a muitas inovações monetárias, a partir de organizações públicas e privadas, do próprio setor empresarial e bancário, mas estamos longe de poder considerar que elas estejam crescendo na medida de sua necessidade. Daí a falta que fazem os estudos em maior profundidade, comparando à evolução dos diferentes sistemas de moedas complementares, sociais ou não. Entendemos que complementares são todas as formas monetárias ou não que existem em funcionamento além da moeda nacional, como são os vales-restaurante, as milhas aéreas utilizáveis para pagamento de viagens ou compras de produtos, os vales-transporte, os cupons de desconto em sistemas de fidelização da clientela etc. Reservamos a expressão moeda social àquelas que são propostas e administradas por iniciativas populares, para ampliar o mercado potencial de pessoas/grupos em situação de exclusão social.

Começamos esse item referindo-nos a uma parceria ausente entre o Brasil e a Argentina porque não há dúvida de que a construção geopolítica da região depende dela. Isso ocorre muito no plano dos governos, em que existem grandes declarações que logo não são acompanhadas por políticas articuladas no nível macro, mas terminam caindo na lógica do atual e prevalecente tipo de globalização econômica, com acordos bilaterais. Tampouco ocorre no plano das organizações da sociedade civil, apesar da existência de algumas iniciativas que o tentem, como as várias edições do Fórum Social Mundial e a persistente Feira de Economia Solidária de Santa Maria,[12], no Rio Grande do Sul, que, em julho de 2012, realizou seu 19o encontro anual de pequenos produtores e cooperativas da Economia Solidária, atualmente de alcance na América Latina. Apesar de na última década, terem existido governos de proximidade ideológica, não chegou a dar-se uma convergência no terreno de construção de políticas na área social, nem reforço do potencial regional de mercado em forma estável. A diversidade territorial, a enorme carência de regiões empobrecidas e o favorável contexto político com oposições partidárias fortes não foram suficientes para levar o Brasil a experimentar moedas regionais “oficiais” para atenuar a crise financeira, nem a Argentina colocou em prática iniciativas de democracia avançada, como o orçamento participativo e os bancos comunitários com moeda social. Reflexos da identidade profunda de cada país, luzes e sombras de uma relação complexa, em que podemos ressaltar os seguintes fatores:

  • Na Argentina, uma herança do regime populista do pós-guerra, que constituiu uma classe média forte e duradoura, de base fundamentalmente operária. Talvez aí esteja um fator essencial para a compreensão das redes de troca com moeda social, que nasceram na classe média e chegaram a ter impacto sobre a vida de 6 milhões de pessoas, por volta de 2001. Vale a pena lembrar que essa cifra corresponde a um sexto da população total do país na época, e de um terço de sua população economicamente ativa. Eram iniciativas de grupos organizados por setores da população empobrecida pelo ajuste estrutural, que resistiam a perder sua qualidade de vida. Neles, os participantes podiam encontrar de tudo: alimentos frescos e preparados, roupa, material escolar e de limpeza, e também serviços típicos de classe média como estilistas, ginástica aeróbica, sessões de tarô, pacotes turísticos e psicoterapia… O “mercado” das trocas chegou a ser uma alternativa, já que qualquer pessoa podia recorrer a elas em qualquer horário, em qualquer dia da semana, em qualquer lugar. Nas grandes cidades sempre havia por perto um clube de trocas (Nodo ou simplesmente um “trueque”) onde se podiam gastar moedas sociais acumuladas. Muitos usuários nem sequer conheciam as “feiras de trocas” porque eram pagos diretamente em moedas sociais em seus lugares de trabalho e lá mesmo as repassavam a terceiros (familiares ou não). Estimativas feitas por diferentes grupos referem-se a um “PIB complementário” de mais de 3 bilhões de dólares no período 2001-2002.  A crise institucional do país, em dezembro de 2001, terminou por criar as condições para que as redes de troca sucumbissem à tentação de cair no “outro mercado” do qual tentavam escapar: hiperemissão e falsificação de moedas provocaram a quebra da confiança necessária à sobrevivência do sistema solidário e o caos se apoderou dessa construção única na História: autogestão de um mercado quase perfeito durante mais de seis anos. Destruídas as grandes redes, os pequenos grupos restantes não suportaram o esvaziamento do mercado e a inexistência de um sistema de gestão que garantisse a eficiência e transparência necessárias à reorganização. A partir de 2003, as redes de troca declinaram substantivamente, enquanto o “modelo argentino” levado ao país vizinho cresceu, multiplicou-se e diversificou-se, sem poder regressar renovado ao país de origem.
  • No Brasil, a presença de sólidas organizações de base, geralmente apoiadas por um setor da Igreja Católica vinculado à Teologia da Libertação, levou à criação de movimentos sociais suficientemente fortes para influenciar as políticas públicas dirigidas aos setores de baixa renda. Assim como a inconclusa reforma agrária pode ser vista como uma resposta do poder público ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) a própria criação da Secretaria Nacional de Economia Solidária do Ministério do Trabalho e Emprego (SENAES-MTE), em 2003, deve-se à existência prévia de uma Rede Brasileira de Economia Solidária, articulada de “baixo para cima” ao longo de décadas. É assim que a reconhece o próprio titular da Secretaria, desde o início até o presente, professor Paul Singer, indiscutível autoridade acadêmica em âmbito internacional, ex-diretor do Departamento de Economia da Universidade de São Paulo. Foi também graças a ele que as iniciativas de moedas sociais foram reconhecidas como “empreendimentos da Economia Solidária” já no primeiro mapeamento realizado em âmbito nacional em 2006.[13] Na verdade, foi em 1998 que o “modelo argentino” entrou no Brasil com o formato de “clube de troca” por iniciativa da Rede Latino-Americana de Socioeconomia Solidária (RedLASES).[14] Isso ocorreu na cidade de São Paulo, onde se criou a primeira moeda social denominada “bônus”,[15]  que ainda existe e circula em vários clubes e diversas feiras de trocas solidárias da zona sul da cidade. A partir de 2000, a iniciativa multiplicou-se em Porto Alegre, em Florianópolis, em Curitiba e no Rio de Janeiro. Durante o encontro da Rede Brasileira de Cultura e Economia Solidária, realizado em Mendes (Estado do Rio de Janeiro), em junho desse ano, o nascente Banco Palmas[16] – organizado por uma associação de vizinhos da cidade de Fortaleza – criou o Palmares, sua primeira moeda social, como um híbrido entre o modelo argentino dos clubes de troca e o modelo mexicano dos Tianguis Tlaloc. À diferença dos clubes de troca da Argentina, frequentados principalmente por pessoas da classe média, onde circulava grande variedade de produtos e serviços, os Palmares não prosperaram possivelmente porque a população envolvida buscava comida como prioridade, o grupo condutor não conseguiu diversificar o público usuário a setores de maior poder aquisitivo, nem expandir o horizonte das trocas a outras localidades. Em outubro de 2002, em parceria com a organização holandesa STRO[17] e a RedLASES, foi lançada a nova moeda social Palmas (impressa na Argentina) para a execução do Projeto Fomento, um modelo original de duplicação da massa monetária em circulação: para cada Real existente, criou-se um equivalente em Palmas, permitindo-se o pagamento de empréstimos feitos em reais com a nova moeda Palmas. Foi criada, assim, a primeira experiência de moeda social com lastro em moeda oficial. Quatro anos mais tarde, em condições próprias do Brasil, onde é preciso reconhecer que a iniciativa do Banco Palmas teve apoio do governo nacional (SENAES), do Banco do Brasil, do Banco do Nordeste e do próprio Banco Central, a experiência começou a ser replicada para conformar uma Rede Nacional de Bancos de Desenvolvimento Local. Em 2009, o Banco Central do Brasil realizou o I Simpósio Internacional de Inclusão Financeira, ao término do qual se assinou um convênio com o Ministério do Trabalho e Emprego e o recém-formado Instituto Banco Palmas, sob cuja responsabilidade está a formação de agentes e a articulação do conjunto de iniciativas, com mais de oitenta bancos comunitários, com suas moedas sociais locais, operando em 2012. Outro fator que nos parece revelador da importância dessas iniciativas é que em setembro de 2011, Marusa Vasconcelos Freire, funcionária do Banco Central do Brasil defendeu sua tese de doutorado na Universidade de Brasília, num trabalho que leva por título “Moedas Sociais: Contributo em prol da elaboração de um marco legal e regulatório para as moedas sociais circulantes locais no Brasil”[18] mostrando até que ponto a temática das moedas sociais está institucionalmente instalada no país.

Não há dúvida de que no momento em que as crises monetárias abalam a estabilidade de países do hemisfério Norte e Sul, seria muito bem-vinda a retomada de uma parceria mais profunda entre dois países de indiscutida liderança na região, mesmo que suas economias sejam tão assimétricas. Uma sólida conformação regional da América do Sul não deveria ficar reduzida a encontros periódicos entre presidentes e funcionários, mas merece ser pensada com urgência por outros atores sociais, à luz das melhores experiências de ambos.

3. O que aconteceu com as moedas complementares na Argentina?

O primeiro clube de trocas da Argentina surgiu num dia 1o de maio de 1995, promovido por um grupo de amigos de classe média, inspirados numa rede de comercialização de multinível, na qual os maiores lucros vinham de formar redes, não de vender os produtos da multinacional de produtos de limpeza. Era uma época de rápido crescimento do desemprego, e as pessoas da classe média, antes de perderem seus benefícios habituais, preferiam ensaiar novos formatos para enfrentar a situação. Ao contrário do que se pensa, num primeiro momento, não era uma utopia socialista, mas sim um paliativo à crise que arrastava cada vez mais vítimas. Paradoxalmente, a solidariedade se descobriu quando as pessoas perceberam que era tão fácil formar novas unidades que a autonomia foi se espalhando pelo país afora. Diferentes grupos, de esquerda ou não, competiam com o sistema original (claramente orientado a produzir lucros), criando novos valores, como a participação das bases nas decisões e a transparência na gestão dos grupos, denominados “clubes de troca”, “Nodos” ou mesmo “redes”, segundo a região. Pode-se dizer que houve pelo menos cinco grandes etapas na evolução das redes de troca.[19]

I. Entre maio de 1995 e maio 1997 havia cerca de oitenta “clubes de troca”, disseminados no país, com sistemas de contabilidade variados: planilhas, livretas centralizadas, cartões individuais, vales nominais intransferíveis; com o início dos vales transferíveis: surgiu a primeira moeda complementar social denominada “crédito”, por estar baseada na confiança que devia existir no grupo impulsor de cada projeto. Com o interesse crescente da mídia, o sistema cresceu e houve uma multiplicidade de bônus de troca, conservando ainda um sistema de gestão descentralizada dos grupos. Podemos dizer que se passa de 23 participantes no primeiro grupo a mais de mil nesse período, em várias regiões do país.  

II. Entre maio de 1997 e julho de 1999, houve um crescimento exponencial, em parte graças à crise de desemprego, em parte, ao apoio da mídia, o que impulsionou a organização em várias zonas do país. No nível da área metropolitana de Buenos Aires e das províncias do interior sobrevieram as lutas pela hegemonia das regras de funcionamento, principalmente da emissão e distribuição dos bônus, estabeleceram-se reuniões mensais de coordenação dos “nodos”, das regiões e também em âmbito nacional. É o florescimento da descentralização, da tentativa de democracia direta; o modelo contagia e se desenvolve praticamente sem ajuda externa. Há vários modelos de capacitação: alguns centrados na produtividade, outros na solidariedade, outros, ainda, mistos.

III. No período de julho de 1999  a dezembro de 2000 foram,produzidos dois eventos fundamentais: a tentativa de recuperar o controle por parte do grupo fundador (La Bernalesa, crédito “arbolito”), com a organização de feiras com público de mais de 10 mil pessoas todo fim de semana. Nelas, paga-se com moeda oficial a entrada aos locais, moeda que também é usada nos lugares mais convenientes para alugar mesas, usar o estacionamento de carros etc. Como criaram-se mais de 8 mil grupos em todo o país, foi fácil para os fundadores chegar a um acordo com o Ministério da Economia para “franquear” o modelo no país inteiro. Na verdade, esse foi o princípio do fim da autonomia dos grupos e durou nada mais que seis meses, suficientes para que o sistema sucumbisse com falsificações e cópias do “modelo”, sem nenhuma possibilidade de controle.

IV. Entre janeiro de 2001 a abril de 2002 houve um crescimento explosivo de grupos e redes autônomas, já com o grupo fundador desvinculado do Ministério da Economia, por acusações de malversação dos recursos; as redes se aglutinaram em dois modelos principais: Rede Global de Trocas e Rede de Trocas Solidárias.[20] É nesse período que o IBOPE estimou em mais de 2 milhões de famílias os usuários, regulares ou esporádicos, das moedas sociais das redes de troca, cifra muito expressiva se considerarmos que corresponde a um sexto da população total do país e a um terço da população economicamente ativa no mesmo período.

Deve-se recordar que a crise financeira da Argentina, ocorrida a partir de dezembro de 2001, devastou o que restava dos sistemas auto-organizados e solidários: foi o rebote da crise de confiança que os “mercados” tradicionais tão bem conhecem.

V. A partir desse momento e até o presente, desapareceram as grandes redes organizadas, mas conservaram-se grupos pequenos e médios, entre cinquenta a setecentos participantes, configurando um modelo híbrido de controle centralizado, competitividade atenuada e solidariedade de pequenos grupos. Em 2011, estimavam-se em umas 10 mil pessoas, como mínimo, o total de membros ativos. O grupo de jornalistas franceses integrantes do TAOA (There Are Other Alternatives) relevou esses dados em 2011 e produziu um interessante informe qualitativo que pode ser encontrado em seu site.[21]

Uma coleção de mais de 3300 diferentes moedas de troca só da Argentina, resgatadas pelo colecionador e numismático Marcelo Gryckiewicz pode ser encontrada em vários sítios da internet, entre outros no da Rede LatinoAmericana de SocioEconomia Solidária.[22]

  • IMAGEM 3: CONJUNTO DE MOEDAS ARGENTINAS
  • IMAGEM  4:TICKET TRUEQUE
  • IMAGEM 5: ZONA CAPITAL
  • IMAGEM 6: ZONA OESTE
  • IMAGEM 7: ZONA RIO GRANDE
  • IMAGEM 8: ZONA SUR
  • IMAGEM 9: RED FEDERAL DE CANJES
  • IMAGEM 10: TICKET VIAJERO DEL TIEMPO
  • IMAGEM 11: RGT – TRASLASIERRA
  • IMAGEM 12: VALE TRUEQUE TIDI
  • IMAGEM 13: ZONA SUR SIN FRONTERAS

 4. Moedas sociais no Brasil: Dos clubes de troca aos bancos comunitários e circuitos culturais independentes

Não existem estudos atualizados sobre as formas de moedas sociais que se desenvolveram no Brasil, a partir de 1998. Certamente, quando estas páginas forem publicadas, os dados já terão mudado. Portanto, faremos aqui somente um esboço  geral até meados de 2012, tratando de deixar suficientes pistas para que o leitor interessado possa atualizar-se. Adotamos a denominação moeda social para designar moedas complementares locais administradas pela comunidade com o propósito de distribuir riqueza. Ela foi proposta num evento realizado em 1999 para caracterizar o processo das redes de troca na Argentina[23] e foi adotada no Brasil por assinalar seu sentido contra-hegemônico em relação à moeda oficial.

Uma detalhada coleção foi publicada em 2011 por um colecionador português que conseguiu fazer um mapeamento com mais de cem moedas complementares que existiram e também de outras que ainda estão em uso.[24]  Outros dados até 2011 podem ser encontrados num Informe sobre bancos comunitários no Brasil.[25]

Sem pretender uma sistematização rigorosa e duradoura, mas com o objetivo de caracterizar a evolução do fenômeno nesses catorze anos, podemos classificar essas iniciativas em quatro tipos básicos:

I. Clubes de troca ou Mercados de Trocas Solidárias;

II.  Feiras em eventos de curta duração;

III. Bancos Comunitários com moedas sociais locais; e

IV. Grupos Culturais independentes, com moeda própria.

I. “Clubes de troca” ou “Mercados de Trocas Solidárias” ou ainda “redes de trocas solidárias”, são aquelas iniciativas que emitem sua moeda própria, em geral sem lastro, como moeda de crédito distribuída em quantidades adequadas às possibilidades dos “mercados” locais. Um estudo preliminar recente (não publicado) revela mais de duzentas iniciativas desse tipo, administradas por grupos de pessoas interessadas em ampliar suas atividades econômicas. O primeiro clube de trocas do Brasil foi criado em 1998, em São Paulo, liderado por Carlos Henrique Castro, da Associação para o Desenvolvimento da Intercomunicação, com inspiração no modelo argentino trazido ao Brasil por um grupo de pesquisadores e ativistas da RedLASES.[26] Sua moeda social foi chamada “bônus” e ainda continua em circulação. Foi e continua sendo um ponto de partida para a multiplicação de iniciativas, hoje mais voltadas à formação de bancos comunitários de autogestão. Seguiram-se modelos similares ou com pequenas variantes locais nas principais cidades, capitais de estados, graças ao florescente movimento de Economia Solidária que, a partir do Fórum Social Mundial, acolheu a ideia como uma das inovações necessárias à construção de um novo modelo de desenvolvimento, viável sem ajuda externa: Porto Alegre, Rio de Janeiro, Florianópolis, Curitiba, Ponta Grossa, Vitória da Conquista, Salvador, Fortaleza, Santos, Campinas, Recife, Novo Hamburgo, Viamão, Campo Grande, Goiânia, Belo Horizonte.

Mesmo procurando a autogestão, esse modelo tem a característica de depender do carisma e da dedicação do líder ou grupo promotor. Graças à particularidade de não ter ajuda externa, em geral como opção ideológica, torna-se uma carga de trabalho relativamente pesada, impossível de replicar-se para aumentar seu impacto nas economias locais. São geralmente feiras periódicas quinzenais, ou mensais, em contraste com as iniciativas exponenciais argentinas que eram, pelo menos, semanais, em vários horários, além de consistir em uma trama territorial permanente, ao longo da semana.

Além de iniciativas no estado de São Paulo, promovidas pelo grupo fundador do primeiro clube de trocas, permanecem ativos desde sua criação, grupos de trocas em Curitiba (estado do Paraná), onde há onze clubes de troca na área metropolitana com sua moeda “Pinhão”,[27] e o grupo de Novo Hamburgo, com sua  moeda Pampa Vivo,[28] muito presente em eventos de difusão exterior como a citada Feira anual de Santa Maria.

Ou seja, no Brasil, não chegou a consolidar-se um funcionamento do conjunto de grupos como alternativa ao mercado oficial, como ocorreu durante quase sete anos na Argentina. Mas, sem dúvida, essa multiplicidade de iniciativas fala de uma apropriação conceitual significativa, mesmo num país com as dimensões que tem. Pode ser um primeiro passo na construção de novas alianças sociais para alcançar um modelo de desenvolvimento voltado à sustentabilidade e não somente ao crescimento econômico. Na base dessas iniciativas não se pensa em soberania monetária como processo desvinculado de soberanias alimentaria e ambiental, mas, sim, de emancipações simultâneas e graduais, de construção de cidadania.

Um caso especial é o da feira mensal para a população em situação de rua, nos baixos do Viaduto do Glicério, na cidade de São Paulo, organizada em conjunto pela ITCP FGV[29] e pela organização “Minha Rua, minha casa”,[30] com a moeda social Miruca, que contribui há mais de cinco anos para a construção de vínculos entre moradores do bairro, ativistas sociais e a população “sem-teto” que concorre a esse evento em que se troca trabalho acumulado ou realizado no momento da feira por Mirucas, para aquisição de comida, roupa, objetos usados em bom estado, além de promover certo nível de integração com essa população, complexa de abordar. Os resultados não param de crescer, mesmo com a dificuldade de manter essas iniciativas “de baixo para cima”, pouco integradas a políticas públicas que sofrem descontinuidade ao longo do tempo.

  • IMAGEM 14: BÔNUS
  • IMAGEM 15: GRANDINO
  • IMAGEM 16: PAMPA VIVO
  • IMAGEM 17: CASSINO
  • IMAGEM 18: ZUMBI
  • IMAGEM 19: VERDINHA

II. Outra modalidade que se desenvolveu com vigor no Brasil foram as feiras de trocas com moeda social em eventos de curta duração. Com moeda própria, cada evento – com seu perfil – vem organizando há mais de uma década feiras de trocas de caráter eminentemente educativo. Os principais foram, sem dúvida, os eventos de Economia Solidária promovidos pela SENAES, em âmbito nacional, estadual e municipal, com moedas sociais vinculadas à prática dessa “Outra economia possível”. Feiras desse tipo, cujo maior impacto foi inspirar a disseminação do modelo pelo país afora, foram realizadas no Fórum Social Mundial em Porto Alegre (2001, 2002, 2003 e 2005), onde se usaram as moedas Sol, Mate e Txai, e as que continuam em atividade nas Feiras anuais de Cooperativismo Solidário em Santa Maria[31] antes mencionadas, com a moeda Mate, de criação coletiva. Nessa categoria podemos incluir também iniciativas em universidades, como as feiras de trocas de livros em Rio Grande,[32] a experiência anual do Grão, voltada a uma reflexão sobre o consumo consciente com a comunidade educativa, na Universidade Federal da Bahia,[33] e as sucessivas edições do Programa Gaia Sul,[34] em que o módulo de formação em Permacultura Integral inclui sempre a criação e uso de uma moeda social, num contexto diferente do da economia solidária, já que seu foco está situado na difusão das cidades/comunidades em transição, como expressão da responsabilidade de construção, hoje, de uma sociedade com soberania energética;[35] e os eventos da Cidade do Conhecimento[36] aos quais nos referiremos mais adiante. Há certamente muitas outras, mas para o propósito ilustrativo desse modelo, essas dão conta da variedade e criatividade alcançadas.

  • IMAGEM 20: SOL
  • IMAGEM 21: ECOSAMPA
  • IMAGEM 22: CUIA
  • IMAGEM 23: MATE
  • IMAGEM 24: TXAI
  • IMAGEM 25: PEQUI
  • IMAGEM 26: IDEA
  • IMAGEM 27: AXÉ

III. Bancos comunitários: o salto evolutivo de respaldar moeda social em moeda oficial

Se quisermos compreender o significado do Banco Palmas[37] na história das moedas sociais no Brasil, é preciso lembrar que as atividades de construção de capital social do Conjunto Palmeira começaram como uma resposta de resistência à transferência (involuntária) de uma população de baixa renda da zona costeira à periferia de Fortaleza, por razões especulativas imobiliárias, em 1975. Ou seja, houve mais de vinte anos de lutas e conquistas populares que fizeram que o programa de microcrédito lançado em 1998 se caracterizasse como “Banco Palmas”: um banco que não era banco no sentido tradicional, mas que – provocativamente – denominava-se como tal para mostrar o abismo que existia entre os bancos e o novo modelo, que chegava à população que mais precisa de dinheiro. Assim cresceu a Associação de Moradores do Conjunto Palmeira (Asmoconp) e surgiram seus diversos programas sociais, destinados a promover capacidade empreendedora, com a incubação de iniciativas especialmente dirigidas às mulheres e ao microcrédito, em geral. Davam-se pequenos empréstimos para consumo ou produção, em diferentes formas, com dinheiro vivo ou por meio de um cartão de crédito – o PalmaCard – que era aceito em comércios do bairro, com o compromisso do “banco” pagar no curto prazo e do cliente devolver ao banco em prazos maiores.

Inspirado no modelo iniciado por M. Yunus (Premio Nobel da Paz em 2006) e adaptado muito criativamente às condições locais, o Banco Palmas começou a oferecer seus serviços financeiros com uma metodologia que foi crescendo com ele, inaugurando o papel fundamental dos “analistas de crédito”, moradores do bairro capazes de ganhar a confiança dos tomadores de empréstimo e informantes vizinhos, que os recomendavam ou não! É preciso reconhecer que desde 1998 até hoje, registraram-se baixíssimos índices de inadimplência nos empréstimos. Em junho de 2000, Joaquim Melo, o coordenador do Banco Palmas teve seu primeiro contato com o modelo argentino de “Clube de Trocas”, levado pela RedLASES ao Encontro Nacional de Cultura e Economia Solidárias, realizado na cidade de Mendes, no estado do Rio de Janeiro. Em agosto do mesmo ano lançava-se a moeda social Palmares (e seus “centavos”, os palmirins) para ser usada nas feiras semanais do bairro, que já se realizavam aos sábados. Pouco tempo depois, mudou-se o modelo de equivalência da moeda pela equivalência ao Real e o sistema melhorou seu funcionamento, mas não de forma significativa.

Foi durante o Fórum Social Mundial 2002 que a organização holandesa Strohalm, especialista no desenvolvimento de sistemas monetários alternativos em vários países e a RedLASES propuseram ao Banco Palmas a realização de um projeto de maior alcance que as feiras semanais, com a criação da moeda social Palmas. O projeto foi realizado durante três meses, culminando com a construção de um local para funcionamento da Escola de Economia Solidária do Banco Palmas, a Palmatech.[38] A diferença com a moeda anterior foi que se respaldou em reais a circulação de igual quantidade de moedas sociais e, com isso, duplicou-se a massa monetária em circulação. Os tomadores de empréstimo em Reais podiam devolvê-los em Palmas, e isso motivou a aceitação das moedas sociais nos comércios e no bairro, em geral. Terminado o projeto Fomento, a situação tornou a decair, provavelmente pela ausência de produtos e serviços de interesse da comunidade local para comercializar em Palmas. Isso levou a coordenação do Banco Palmas a pensar em modos de aumentar a oferta de produtos e serviços de primeira necessidade. Em 2004, começaram as primeiras negociações para estabelecer acordos com os fornecedores de gás engarrafado, gasolina e transporte público para o centro da cidade. O modelo teve êxito e o Banco Palmas – precisamente por não ser um “banco” no sentido tradicional – começou a ser referência para comunidades de baixa renda. Mesmo sem haver uma regulamentação específica para as moedas sociais no Brasil, o governo apoia a iniciativa há mais de sete anos, por meio de políticas públicas de combate à pobreza, implementadas pelos Ministérios do Trabalho e Emprego (SENAES) e do Desenvolvimento Social e Combate à Fome pelo Banco Popular do Brasil (BPB) e pela Fundação Banco do Brasil – que  em 2005 concedeu seu Prêmio de Tecnologia Social ao Banco Palmas. Dessa forma, o modelo encontrou as condições que necessitava para expandir-se e conformar a uma rede nacional com mais de oitenta iniciativas, em todas as regiões do país.[39]

Esse apoio, absolutamente justificado por tratar-se de populações excluídas dos serviços bancários tradicionais, constitui sem dúvida uma de suas fortalezas, mas talvez seja também sua maior fragilidade. Não é fácil pensar que essas condições sejam permanentes, e a busca de sustentabilidade deveria ser um desafio do curto e médio prazo. Por isso, também, nos parecem interessantes as iniciativas que veremos a seguir, sabendo que a história das moedas sociais, no Brasil e no mundo, está apenas começando a ser escrita e que novos desafios deverão ser superados. O Banco Palmas[40] é um marco epistemológico, teórico e político na história dos movimentos sociais, e qualquer novo salto evolutivo incluirá essa inspiração pioneira de respaldar moedas sociais em moeda oficial, conquistar o apoio do poder público e chegar até o Banco Central, que, depois de persegui-lo numa primeira etapa passou a promovê-lo e incluí-lo nas legítimas preocupações que deveriam guiar os destinos dos demais bancos centrais, de outras latitudes e do Hemisfério Norte.

  • IMAGEM 28: PALMA
  • IMAGEM 29: passagem solidária
  • IMAGEM 30: SANTANA
  • IMAGEM 31: UNIAO SAMPAIO

IV. O Circuito Fora do Eixo: a cultura como economia visível

A iniciativa que hoje é conhecida na América Latina como Circuito Fora do Eixo (FDE) nasceu com o Espaço Cubo, em Cuiabá, capital de Mato Grosso, em 2001. Inicialmente conhecida como Cubo Mágico, era uma associação formada por jovens universitários do curso de Comunicação Social da Universidade Federal de Mato Grosso e da Universidade de Cuiabá, orientada à produção de eventos, vídeos e publicidade em geral. Com o tempo, ganhou dinamismo na área cultural, com especial relevância para a produção musical, e contava com estúdio para ensaios e gravações, loja para distribuição de discos e mecanismos de divulgação, folhetos informativos e site na internet. Para realizar suas atividades, a partir de 2004, criaram sua moeda social – o Cubo Card – para viabilizar parcerias e possibilidades reais de produção, circulação e distribuição de produtos culturais, não só entre os membros, mas também no exterior da associação, especialmente com patrocinadores de eventos. A princípio, moeda virtual, na verdade mais uma unidade de contas, em agosto de 2008, no Festival Calango, o Cubo Card passou a ter suporte em cédulas de papel. Em 2009, circulava já um valor de cerca de 120 mil Cubo Cards (equivalentes a 120 mil reais), envolvendo uma rede de 450 membros, só no Brasil.[41]

Em 2005, o Espaço Cubo foi o principal motor da associação Circuito Fora de Eixo (CFE), aglutinando outras associações similares para uma articulação nacional e o conceito do Card expandiu-se. Cada associação passou então a desenvolver o seu Card, estabelecendo a sua valorização e tabelas de trocas. Todas essas moedas passaram então a circular não apenas no âmbito interno da associação que a criou, mas também no exterior, conforme acordos e parcerias definidas, podendo atingir até um âmbito nacional. Outras moedas foram o goma card (Uberlândia, Minas Gerais), a patativa (Fortaleza, Ceará), a lumoeda, o palafita card, o conto, o barão, o enxame, o marciano e o lasca, entre outros.

Em 2011 foi criado o FDE Card e estabeleceram-se casas FDE em São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre e Belém. Os “bancos” cuidam também dos coletivos e a definição de projetos estratégicos considerou o Projeto “Conta Comum” de financiamento colaborativo (modelo de “crowdfunding”) uma de suas apostas ideológicas mais fortes. Uma das atitudes de vida desses coletivos é a ousadia, a atitude permanente de aprender com os erros e aproveitar as experiências prévias: a massa coletiva de São Carlos (estado de São Paulo) pegou os “atalhos” deixados pelo cubo e fez em um ano o que esee fez em cinco, lição aprendida também pelo enxame, de Bauru (SP). No Circuito FDE, a moeda sempre foi instrumentada sem lastro em moeda oficial, isto é, com base na força de trabalho.

Pode-se dizer que, na prática, há três “moedas” em exercício:

  1. a troca direta pautada no acordo, segundo o valor de uso, em que não importa o preço: por exemplo, em 2011 trocaram um aparelho de ar-condicionado por um carro;
  2. a hora de trabalho, que está avaliada em R$ 50 em 2012 e é retribuída com o mesmo valor para todos;
  3. as moedas em papel: cubo, goma, patativa, lumo, palafita, conto, barão, enxame, contato, marcianos, cardápio underground, com equivalências locais.
  • IMAGEM 32: CUBO CARD
  • IMAGEM 33: GOMA CARD
  • IMAGEM 34: PATATIVA
  • IMAGEM 35: LUMO

Como dado significativo, é possível encontrar no balanço das atividades de 2011 um movimento total equivalente a 88 milhões de reais, somente 15% foi feito em moeda oficial, isto é, em reais (R$)! Ou seja, estamos nos referindo a intercâmbios de mais de 60 milhões de reais movimentados em moedas sociais. Nada trivial para o setor da cultura independente, que está pouco tempo “fora do eixo”.

Uma estratégia do Banco FDE é trabalhar sempre com moedas oficiais e complementares, em duas linhas de crédito: empréstimos a coletivos e apoio a empreendimentos já em funcionamento. Seu “grito de guerra” – saudável na geração de menos de 30 anos – tem sido fazer TUDO, AO MESMO TEMPO, AGORA!

A conquista mais importante da iniciativa é provavelmente a sustentabilidade de um processo que nasceu em 2005 e, sem apoio externo, continua crescendo, dentro e fora do país. Líderes jovens, que se consideravam “fora do eixo”, foram capazes de tornar visível e dar valor à cultura, fazendo viáveis suas iniciativas em tempo recorde. Continuam crescendo. Em julho de 2012, participaram do Seminário Ibero-Americano de Economia da Cultura realizado em Madri e tiveram reconhecimento internacional. Apesar de resistir inicialmente à criação de estruturas jurídicas que burocratizam e dificultam as ações culturais, atualmente, estão promovendo a campanha de “CNPJ para todos”.

Ainda no setor da economia da cultura, devemos resgatar o programa Cidade do Conhecimento, na Universidade de São Paulo, que teve várias iniciativas, entre as quais podemos citar:

  •  
  • a moeda social Garatuí, lançada em 2003 na pequena cidade de Pipa (Rio Grande do Norte), onde a educação era premiada com moedas sociais que, mais tarde, eram usadas no acesso à Internet[42];
  • as moedas criativas digitais saber, talento e alegria, lançadas em março de 2011,[43] que tiveram continuidade em maio de 2012, no contexto de proposta de um novo FMI (Fundo de Moedas Imaginárias). Foram incluídas nas “+20 Ideias para girar o mundo” propostas pela UNESCO na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, na Rio+20. O projeto idealizado pelo professor Gilson Schwartz, da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, tem como proposta um fundo de moedas imaginárias, cujo capital ou “lastro” é cultural. São as moedas da economia criativa, que podem ser vistas como uma forma tecnologicamente avançada de “vale-cultura”. O objetivo é colocar em circulação moedas da cultura e do conhecimento, emitidas por pontos de cultura, ONGs, escolas e universidades com o apoio da Cidade do Conhecimento, da Universidade de São Paulo. O espírito do projeto é inverter a determinação causal que sempre colocou a cultura a reboque dos “fatores econômicos” para levar adiante, numa rede global de experimentação sociotécnica, o poder contido na liberação do poder coletivo de criação monetária. Com o surgimento de uma Secretaria de Estado de Economia Criativa no Ministério da Cultura,[44], vemos surgir outra ruptura epistemológica, teórica e política no horizonte das moedas sociais, cujo significado ainda não pode ser avaliado mas não deveria ser ignorado.[45]

 6. O futuro, onde está?

 Se quisermos pensar no que poderá acontecer nos próximos anos com as moedas sociais no Brasil, talvez um bom indício seja o testemunho recente de três entrevistados acerca do significado dos diferentes projetos em suas vidas. Eles falam de um impacto que mostra marcas deixadas em cada um e a possibilidade de que muitas outras pessoas sejam contagiadas pela experiência. Para ilustrar essa perspectiva, tomamos o caso de três pessoas envolvidas em diferentes tipos de iniciativa: clubes de troca, bancos comunitários e circuitos culturais.

 “Em 1997, trabalhava como voluntário na ADI – Associação para o Desenvolvimento da Intercomunicação – ao lado de Chico Whitaker, com a proposta de facilitar a comunicação entre iniciativas de base que procuravam sua autonomia e o crescimento a partir do potencial interno das comunidades. Ou seja, já estava me inserindo no processo da Economia Solidária e tentava me aproximar do mundo cooperativo. Fazíamos trocas de saber a partir da proposta de uma organização francesa, mas quando nos apresentaram a possibilidade de produtos e serviços, como estava se fazendo na Argentina, achamos a idéia muito interessante e por isso viajamos com minha esposa para esse país, onde participamos do 3º encontro nacional de clubes de troca, uma experiência com mais de mil pessoas, que nos impressionou bastante. Voltamos com a certeza de que era aquilo o que queríamos fazer. Essa viagem foi central na minha vida, mesmo que a experiência não tenha sido tão massiva no Brasil quanto foi na Argentina. Por alguma razão, não soubemos como lidar com o fato da “novidade” ser tomada só temporariamente e como um remendo do sistema. Acho que nós ainda não sabemos mexer com isso, com essa idéia de recuperação do mercado como ele pode ser, não como ele é. O exemplo da reciclagem é bem interessante, como as pessoas podem transformar o que é “lixo” para umas em fonte de renda para elas. Isso ainda não é compreendido e explorado na sua melhor possibilidade. Acredito que o potencial dos clubes de troca ainda está muito mal desenvolvido entre nós. Mas por outro lado, é verdade que no Brasil conseguiu-se colocar dentro do projeto de governo a promoção da rede de bancos comunitários com moeda social. Isso vai além do formato clube de trocas, que chega até 200 pessoas, enquanto o banco comunitário pode chegar a 30 mil. A diferença entre os modelos é que um é independente e o outro dependente do poder público. Minha idéia é que ambos tem papéis diferentes, mas se complementam. A prática do clube de trocas, ou mesmo das feiras de troca com moeda social que ocorrem em outros eventos, é que ela abre a cabeça das pessoas simples, mostra que outras coisas podem ser feitas sem ajuda de ninguém. No momento, estou procurando levar esse modelo para fora da economia solidária organizada. Porque o clube de trocas também é uma tremenda economia solidária. Não me vejo fazendo outra coisa na vida; estou cômodo de fazê-lo como militância, sem que ninguém me pague por isso, em geral sou eu que ponho recursos próprios para isso, em tempo e dinheiro. Porque acredito que cada vez que uma pessoa abre a cabeça para essa idéia, ela possa mudar a vida de muitas outras. Penso continuar com a produção de livros, cartilhas, com grupos musicais que entendam e componham sobre o tema, teatro, feiras, além de melhorar a nossa visibilidade na internet para que os jovens se aproximem. Se é lá que eles estão, é lá que temos que ir: Facebook, Twitter e tudo o que estiver chegando. Tudo para difundir o que é o mercado hoje e o que pode ser, se quisermos mudar. A sociedade vive – permanentemente – de trocas, só que não percebe. Promover essa conscientização é um trabalho lento, imperceptível, mas mais que necessário, urgente para a sobrevivência. Resgatar a cultura de trocas significa mudar o modelo de sociedade que diz a todo momento que só podemos comprar o que necessitamos quando temos dinheiro, o que não é verdade! Vivemos todo o tempo trocando. Mesmo quando trocamos nosso serviço por salário. Temos bilhões de pessoas seduzidas pela lógica do dinheiro para convencer que é possível mudar isso. Bilhões de pessoas mudam o jogo. A experiência em que me formei nesses 14 anos foi para construir uma sociedade mais justa e por isso ainda continuo aberto a incorporar todas as inovações que aparecerem, porque o importante não é um modelo ou outro, mas alcançar uma sociedade mais justa e igualitária, onde todos vivam dignamente. Quando conseguir isso, terei cumprido minha missão de vida.”  (Carlos Henrique Castro, fundador do 1º clube de trocas do Brasil)

Há quinze anos, quando tinha 17, saí de Rio Verde, no interior do estado de Goiás, pra fazer a carreira de Comunicação na Universidade Federal de Mato Grosso, em Cuiabá. Pretendia experimentar uma vida nova num lugar onde não conhecia ninguém. Lá encontrei muito mais do que eu esperava: encontrei a oportunidade de criar e construir o coletivo Espaço Cubo, o primeiro dessa rede que existe hoje em todas as regiões do país. A partir daí, tudo mudou profundamente, me levando a uma outra dimensão. Através do Cubo construímos o Fora do Eixo, uma rede de conexões coletivas criativas, solidárias, desejáveis, sustentáveis e possíveis. Outra mudança. Não tinha clareza do que ia dar na época e, é claro, nem do que vai acontecer daqui pra frente. O que importa é que está tudo acontecendo desde então e não para de crescer. É como creio que deva ser característico de uma rede: a expansão, a transcendência e o enraizamento da conexão. Quando se vive o que se acredita, a conexão se torna orgânica, potente, poderosa. Capaz de mudar estruturalmente, de modo instintivo e pedagógico, com razão e muita sensibilidade, é um outro modo de vida. O índice de felicidade interna bruta nessa vida é o mais elevado. Acho que não por anulação do conflito, mas por segurança na capacidade de resolução dele, cada vez mais veloz. No sistema convencional essa capacidade é anulada, estacionada. A insegurança da maioria é mais rentável pra minoria se manter segura, no controle. Por essas, entre várias outras coisas, acredito ter tudo o que me motiva no laboratório dessa trajetória. Hoje somos umas 50 casas, 90 moedas, mais de 170 coletivos e agora temos uma Universidade Livre. Mas principalmente há centenas de eventos culturais acontecendo pelo Brasil afora. Quero estar presente em todo esse percurso de vida livre, até o fim. (Lenissa Lenza, Casa Fora do Eixo São Paulo)

“Nasci no bairro de Campo Limpo, zona sul de São Paulo e aos 9 anos, quando meus país se separaram, fui morar em Embu das Artes, uma cidade próxima daqui, onde entrei num projeto social chamado Arrastão. Sofríamos sempre as enchentes do córrego próximo a nossa casa. Acho que por isso comecei a me envolver numa grande rede, com pessoas de outras classes sociais preocupadas com as questões ambientais. Na época, tivemos o apoio de uma ONG, não só com dinheiro, mas principalmente com um processo de capacitação muito intenso, que me permitiu viajar ao Paraná para conhecer grupos semelhantes. Viajei também ao Fórum Social Mundial, onde conheci o Joaquim do Banco Palmas e muita gente incrível. Muitas coisas não entendi na época, só comecei a entender muito depois. Há quatro anos o Rafael me convidou para vir trabalhar na Casa da Mulher e da Criança, quando eu era estagiário do Arrastão e estava organizando a feira sociocultural; considero que migrei de uma organização social para um movimento social como é a Casa, um guarda chuva de varias lutas do bairro. Lá, se continuou discutindo o projeto de banco comunitário até que ele aconteceu mesmo, inserido na rede nacional. O Banco União Sampaio foi fundado em 2009 é hoje está bem arraigado na cabeça dos moradores, apesar de que sempre achamos que se pode ir mias longe. A moeda social Sampaio mexeu muito na minha cabeça, principalmente com o sentimento de pertencimento. Uma moeda social traz uma responsabilidade muito grande, porque além das nossas músicas, das cooperativas que fazem nossas roupas, temos uma moeda nossa e isso é tão importante, tenho orgulho dela.Quando era pequeno, lembro que meu pai dizia que morava no Butantã para arranjar emprego, porque tinha vergonha de dizer que era do Campo Limpo! Hoje é o contrario, tenho o maior orgulho disso! Tenho orgulho mesmo de ser da periferia de São Paulo, com tudo o que ela é e tem. Aqui também desenvolvemos a Agencia Solano Trindade, que evoluiu a partir de um empréstimo produtivo cultural que tivemos, para apoiar a grandes expoentes da música da periferia Sul da cidade. Essa mangedoura cultural que é a Zona Sul é mesmo incrível. As bandas contribuem com 10% de seus cachês de shows, venda de discos, camisetas para o fundo da Agência. Temos estúdio de gravação, uma loja colaborativa que pensa tudo integrado a questão da comercialização que fazemos com a moeda Solano. Deixamos de trocar favores para trocar serviços e para contabilizar esse salto criamos a moeda social Solano, que tem equivalência em horas. Temos a rede de pessoas que estão dentro da agência e com a moeda social as pessoas se aproximam, pagando 25 – 50% dos serviços em moeda Solano. E continuamos crescendo! Já temos duas moedas sociais! Veja só. (Thiago Vinicius, 23 anos)

  • IMAGEM 36: BÔNUS tamanho reduzido
  • IMAGEM 37: CUBO CARD tamanho reduzido
  • IMAGEM 38: TUDO AO MESMO TEMPO AGORA tamanho reduzido
  • IMAGEM 39: SAMPAIO tamanho reduzido
  • IMAGEM 40: SOLANO tamanho reduzido

Clubes de troca, feiras com moedas sociais, bancos comunitários, circuitos culturais e moedas criativas estão em ebulição no cenário brasileiro. Pouco conhecidas ainda, consideradas raridades ou recursos da imaginação destinados a permanecerem marginais, as moedas sociais no Brasil vêm mostrando exemplos significativos de que o dinheiro pode ser tocado em sua essência. Como foi exposto ao longo desta obra, isso quer dizer que o paradigma da abundância, reprimido constitutivamente pelo sistema monetário vigente, e a economia política que o mantém, estão mostrando caminhos alternativos, heterogêneos e diferenciados em populações preocupadas com o presente, mas também com o futuro.  É certo que essas contribuições são localizadas e ainda de pequeno impacto na vida integral da sociedade, mas estão aí, oferecendo possibilidades que atraem os jovens e os adultos que ainda precisam de utopias.

Não é tarefa menor dar visibilidade a esse conjunto de iniciativas onde começam a surgir híbridos de feiras de trocas com moeda social que se preparam para ser bancos comunitários de autogestão, bancos comunitários que se associam a grupos culturais independentes: é o caso da União Sampaio[46] com a Agência Cultural Solano Trindade,[47] em que é possível prever protocolos de conexão que vinculem a “Sampaio” e a “Solano”, na integração de moedas sociais com a moeda oficial, alterando as relações sociais, tecendo pontes entre a atividade econômica e a cultural, legitimando a ambas.

Por iniciativas embrionárias que recuperam o poder local acumulado e a ousadia da juventude, pela associação das novas tecnologias da informação e comunicação, pela possibilidade tangível de construção de inteligência coletiva a que estamos assistindo em múltiplas iniciativas contemporâneas disseminadas no território nacional, acreditamos que o futuro verá em pouco tempo bancos comunitários de autogestão, com menor dependência do financiamento externo; novas combinações de bancos comunitários com circuitos culturais; e variantes de moeda social implantada em três etapas, a partir do sistema educativo formal ou informal, com o uso de:

  • moeda social local, em suporte de papel para desconstruir o conceito de dinheiro como monocultura e promover a possibilidade/responsabilidade de alcançar soberania monetária;
  • adoção de contabilidade transparente dos movimentos de compra/venda, em software livre; e
  • realização de transações por mensagens de texto (SMS ou torpedos) quando isso for uma condição para ampliar o mercado.

Com esse modelo, lançou-se em 2011 a moeda azul, num programa piloto para a educação formal de nível secundário na Argentina,[48], numa parceria entre o governo nacional e uma organização de cooperação técnica canadense, em que mostrou-se a potencialidade das netbooks em presença permanente na sala de aula, com adequado acompanhamento de jovens instrutores da geração “nativa digital”. Esse prolongou-se em 2012 na criação de um Laboratório do Futuro,[49] onde as moedas sociais vêm ganhando um novo espaço, focalizado na população adolescente e juvenil. Atualmente, o mesmo se encontra em etapa de teste em algumas iniciativas de moedas sociais preexistentes no Brasil ou em projetos consolidados de desenvolvimento local.

Inovações similares já estão sendo aplicadas com o software livre Cyclos, desenvolvido pela organização STRO, pioneira em sistemas monetários alternativos, presente no Brasil há mais de uma década com o sistema CompRaS, no Rio Grande do Sul, e o Circuito de Crédito Comercial (C3), já em operação na América Central e no Uruguai.[50]

Outro movimento de expansão do horizonte das moedas sociais é o das iniciativas em transição[51], cujas estratégias de implantação incluem a adoção de moedas locais (sociais, claro!) como garantia da sustentabilidade sistêmica.  Seus quatro pontos de partida propõem que:

  1. A vida com menos energia é inevitável e é melhor planejar para isso do que ser pegos de surpresa.
  2. Perdemos a resiliência de lidar com choques energéticos.
  3. Precisamos agir por nós mesmos e precisamos agir agora.
  4. Ao liberar o gênio coletivo das comunidades podemos desenhar formas de viver mais enriquecedoras, prazerosas e resilientes do que o presente.

Curiosa coincidência com as práticas dos jovens integrantes do Circuito Fora do Eixo, cujo lema insiste na necessidade de fazer TUDO, AO MESMO TEMPO, AGORA!

Se pensarmos que o primeiro clube de trocas nasceu em 1998, o primeiro banco comunitário com moeda social em 2002 e o primeiro grupo cultural “fora do eixo” com moeda própria, em 2005, que todos estão funcionando e em transformação permanente, estamos convencidas de que esses dados de 2012 estarão significativamente modificados no momento em que este livro chegar às suas mãos. Não há razão para sermos pessimistas.

Pelo contrário – mais ou menos indignadas, mas sempre preocupadas com o presente e o futuro das novas gerações – estão surgindo com força experiências ainda sem nome e não articuladas entre elas, que falam não só do campo das moedas sociais mas também da lenta construção de uma forma de fazer política. São processos coletivos capazes de articular-se com o poder público e com o mercado real, dando respostas que procuram bem-viver-bem. Hoje e amanhã.

Epílogo e Prelúdio

“O grande desafio da Idade Moderna não é refazer o mundo, mas refazer-nos. Seja a mudança que você deseja ver no mundo.”

Mahatma Gandhi

“Um problema não pode ser resolvido com o mesmo tipo de pensamento que o criou.”

Albert Einstein

“Não vemos as coisas como elas são. Vemos as coisas como nós somos.”

Anaïs Nin

A humanidade e o planeta Terra estão em uma encruzilhada. Nos próximos vinte anos, teremos uma extinção irrecuperável de biodiversidade e a deterioração da qualidade de vida de uma quantidade gigantesca de pessoas; ou daremos o próximo passo na evolução. Dado o extraordinário poder de motivação que o dinheiro tem, mudando o sistema de moedas, podemos inclinar de forma suave, mas segura a direção para onde vamos, sem precisar re-educar nem normatizar o comportamento de bilhões de pessoas. Este livro esboçou uma rota de viagem para chegar a essa meta. Ele tratou do dinheiro no mundo exterior a nós, descreveu sistemas monetários e seus efeitos sobre a sociedade.

Mas há outra dimensão na questão do dinheiro. Para descobri-la, precisamos fazer uma viagem ao mundo que guardamos dentro de nós do imaginário do dinheiro. Esse segundo mapa de viagem nos dará uma noção das emoções coletivas que atuam quando se trata do dinheiro. Ele integrará na nossa visão do dinheiro elementos do nosso hemisfério direito do cérebro, os símbolos e mitos ativos em nosso inconsciente, onde está a fonte primordial do poder implacável de atração do dinheiro.

Seja qual for o assunto, é incomum conectar visões que tratam do “exterior” e do  interior”. Que eu saiba, é a primeira vez que se tenta isso em relação ao dinheiro. Mas a rota mais completa para chegarmos ao nosso objetivo é fechando o círculo entre o mundo exterior e nosso mundo interior, e esse é o propósito do livro intitulado O Mistério do Dinheiro: Além da Cobiça e da Escassez, concebido como uma continuação deste. Nele, exploramos nossa psicologia coletiva, investigando questões como:

• O que explica o tabu do dinheiro nas nossas sociedades? Como os três principais tabus das nossas sociedades – sexo, morte e dinheiro – se relacionam entre si? Por que o dinheiro que você possui e de onde ele vem é mais tabu, até, que a sua vida sexual?

• De onde vem nossa obsessão contemporânea em relação ao dinheiro?

• Por que durante a Era Industrial as moedas convencionais emitidas pelos bancos com base em dívidas dominaram de forma tão exclusiva, se propagando pelo mundo inteiro, independentemente do contexto cultural ou político?

• Por que emoções específicas como a ambição e o medo da escassez foram embutidas no nosso sistema monetário?

• Por que hoje estão ocorrendo mudanças fundamentais no nosso sistema monetário, depois de termos aceitado sem pensar durante séculos as moedas nacionais convencionais?

As mutações paralelas em curso hoje, mencionadas na Onda de Mudança de Valores e na Onda Monetária (Capítulo 9), nos proporcionam pela primeira vez na história uma oportunidade de criar conscientemente a Abundância Sustentável. As iniciativas que estão se desenvolvendo hoje no Brasil (Capítulo 12) assim o demonstram.Aproveitar esta oportunidade pode ser nosso desafio mais decisivo, e para reunir a coragem necessária para enfrentá-la as palavras de Wayne Dyer podem ser muito valiosas:

“Ninguém sabe o bastante para ser pessimista.”418

NOTAS

1 Lapham, Lewis, Money and Class in America: Notes and Observations on Our Civil Religion, Weidenfeld and Nicolson, Nova York, 1988.

2 Trilling, Lionel, The Liberal Imagination, Viking, Nova York, 1950.

3 Drucker, Peter, The Post-Capitalist Society: Harper Business, 1993, pág 1.


[1] Professora da Universidade de Buenos Aires, Faculdade de Ciências Econômicas e Faculdade de Ciências Sociais www.redlases.org.ar

[8]  Multicooper: http://bit.ly/ONFYGy

[10] A capiguara é uma conhecida formiga local, símbolo de membro muito trabalhador para o seu coletivo…

[13] Mapeamento da Economia Solidária, 2005, SENAES TEM: http://bit.ly/ONJ51f

[15] Imagem do bônus de São Paulo.

[16] Banco Palmas: então conhecido como “o banco que não é banco…” www.bancopalmas.org.br

[17] Projeto Fomento: http://bit.ly/OksFgF

[18] A tese pode ser encontrada em: http://bit.ly/UuR98n

[20] Jornal Clarín, Buenos Aires, 24.04.2002, Seção Opinión: Los clubes de trueque deben preservar el sentido solidario:  http://bit.ly/SN4Sl6

[23] Essa expressão foi utilizada pela primeira vez no trabalho  “La moneda social de la Red Global de Trueque en Argentina: ¿barajar y dar de nuevo en el juego social?”, apresentado no Seminário Internacional sobre “Globalización de los Mercados Financieros y sus efectos en los países emergentes”, organizado pelo Instituto Internacional Jacques Maritain, pela CEPAL e pelo Governo do Chile, Santiago, 29 a 31 de março de 1999: http://bit.ly/QxvEhO

[24] Notafilia – Moedas comunitárias no Brasil, Armando García: http://bit.ly/QaEpkO.

[25] http://bit.ly/urtXgM foi publicado pelo periódivo virtual www.asboasnovas.com.

[29] Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares Fundação Getúlio Vargas, São Paulo: www.itcpfgv.org.br

[30] Feira do Glicério, Associação Minha Rua, Minha Casa http://amrmc.blogspot.com.ar/

[32] Feira de Trocas de Livros, Universidade Federal do Rio Grande: http://bit.ly/RaqxXl    http://bit.ly/TmRUkw

[33] Consumo consciente: a experiência do Grãona Universidade Salvador, Bahia: http://bit.ly/SnkbG8

[34]Programa de Formação em Permacultura Integral, ditado desde 2009, em Viamão, Rio Grande do Sul: http://bit.ly/RTAmFT

[35] Movimento de cidades em transição no Brasil:  www.transitionbrasil.ning.com

[38] Projeto Fomento: http://bit.ly/RNETiN

[39] Mapa de bancos comunitários no Brasil: http://bit.ly/i3TGQ4

[44] Secretaria da Economia Criativa: http://bit.ly/UqqdSS

[45] Iniciativa de moeda criativa premiada na Rio+20: http://bit.ly/M5OWeC

[46]Banco Comunitário União Sampaio: http://bancocomunitariosampaio.blogspot.com.ar/

[47] Agencia Cultural Solano Trindade: http://agenciasolanotrindade.wordpress.com/

[48] O Programa Conectar Igualdad www.conectarigualdad.gob.ar distribuiu em menos de dois anos dois milhões de netbooks aos alunos das escolas secundarias públicas. Nessa oportunidade realizou-se o projeto piloto de inclusão social e criação de emprego jovem na era digital: www.1a1sarmiento.com.ar onde foi lançada a moeda azul www.1a1economia.blogspot.com  www.ecoludens.org.ar

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